Blog estritamente com fins literários. Peço,por meio desta, aliás, exijo os direitos sobre tudo o que está escrito. Sem brincadeira, respeitem o espaço, para evitarmos complicações judiciais. Agradece, Pedro Costa.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sodoma

Por Carmem Paiva, a velha cega e louca.

     Se, do auge de minha loucura, tomba -- pelo
sim, pelo não -- a mim e em mim a minha larga
idade
               [(qual o quê da idade, tal Cruz se me
conforma);
     Que não é a Cruz, senão o peso no qual le-
vamos, a nossa idade e a nossa loucura?
     É como velha, qual desta lonjura, a quem
sou o ser sentido e a que é de queimar-me os
olhos
               [é, eu confirmo, na cegueira a solidão
maior: aquela a quem de menor visão perante es-
te vinga-se um santificado,
     E de por ver menos, ainda enxergar de cousa
alguma; no ali qual se embassa, um alguma cou-
sa de cousa alguma;
     Que ponho versos feito quem alvura em todas
as cousas viessem mais nítidas que
para qualquer visão completa:
                                                     [casualmente, eu
não seria cega; apenas louca?
     Termina o véu esfumaçado de vultos nesta vi-
são, que acabo de pouco ou nada --- quanto mede-
se o quanto se vê ---; sem medida eu vou-me vendo.
     Este espírito desajustado de um sentido a festejar
qual seja --: ouvir um pio é-me a felicidade secular
     E, onde rege um parco lumiar -- que não é a luz
senão razão?

Carmem Paiva

Nenhum comentário: