PETRO

Blog estritamente com fins literários. Peço,por meio desta, aliás, exijo os direitos sobre tudo o que está escrito. Sem brincadeira, respeitem o espaço, para evitarmos complicações judiciais. Agradece, Pedro Costa.

domingo, 30 de abril de 2017

Especulações

Se bem a mim cabe aqui
Conforme, a mancha
Da escuridão, à marcha
Informe - venho a ti,

Ó, imensidão! Cabendo a si,
Minh'Alma dorme, e rancha
O verso em sua estância
Operando sob a este mim

Nada menos que especulações.
E, destarte orne, caiba
Enfim, à tão versões

Quanto o verso se abra;
Agora é misto e é ladra
De todas as cores, escuridões.

Petro

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Antes que o dia caia

Mora no violeta de um dia em plena queda, abrigado no ocaso de tudo e como um nada perfeito a minha consciência; esbanjando, da raiz de um grandioso jequitibá, que é minh'Alma, até a copa majestosa, que é até onde minha altura alcança, um sossego; uma dormência acumulada de séculos, e nostálgica ebriedade, e estende-se a minha consciência, do encanto do mar ao vazio da noite que se anuncia; e, bebe de tudo e sacia-se com o mundo diante de si, a amplidão de uma consciência inquieta, difusa e complexa, o vivo negrume esbanja em seu semblante como vagueia a lua diante do espectro noturno que a ameaça, e a tudo toca e por tudo, neste pleno nada, é tocada; consciência de antes que caia o dia que anuncia o advir da próxima aurora, com aquilo novo de novo que traz; com esta mesma consciência basta a cada novo dia, eu penso com sua permanente tarefa inconclusa, de consciência que se forma e reforma, que este dia cai feito todos os outros idos e que virão...

Pedro Costa

sábado, 8 de abril de 2017

Seres Noturnos

por Carmem Paiva, a velha cega e louca.

     Quando verte a noite,
                                           cai
soturno o negrume
                                  e a abóba-
da cinzenta inicia o
prelúdio
                  das coisas sombrias
que
           [há sob o céu,

a lua chora seus raios pálidos
e o mundo grada entre o ocaso
e o nascimento da escuridão,

     Ó, Senhor -
     quase, eu mesma, de quem
a este respeito só pode reter
                        [(num sentido
abstrato - pois sou cega)
                                             a
impressão,
quase morro lembrando da
minha juventude ora tão
vespertina; doirada como o
fio da tarde
                       [(ida sem consolação)
mocidade quem fui um dia;
debulhando, entre os tesos
dedos aos calos, numa oração,
                       [pedidos pelas
criaturas frágeis e sem cuidado.

     As tenha, eu rogo, ao meu
Senhor.
                                        Viro-me noite,
velas acendo, defronte à imagem
e profunda é tamanha a minha
loucura -
     Levanto de meus joelhos
dobrados,
                    opero o sinal da cruz
                    [(e, noutras noites,
doutras vidas quando podia ver)
     assombrada pelo cansaço, e
remida pela beleza.

     Ó, Cristo!

     Dai-me a tua Paz.

     Vou à igreja, é já hora.

Carmem Paiva

sexta-feira, 31 de março de 2017

Dois poemas

Cesto

Vórtice em sucursal,
Acontece qual vai-me;
Pesando o entardecer,
À mente arredia;
                                   locupleto
Solta-se o verso,
                                   destoa
e olha-se sério ao espelho
vendo a carcaça (um velho
cesto).

Vulto

Há por aqui
Fatos;
Orbitado deles,
Turvo pelo volúvel
Dançar das sombras,
Suas incorreções,
                                  feito fique
a vida deles emoldurada
vazia vã vulto.

Pedro Costa

segunda-feira, 20 de março de 2017

Metempsicose

Onde está isso
(mal pestanejo)
de ser outrem?
Outr'Alma me responde:
Longe de ti --
Até aqueloutro
ardeu aqui.

Certo modo não
há ninguém.
Um fantasma, apenas.

Olhe ali,
diz-me outro:
Quem é aquele?
Não sei, eu respondo --
Ele é tu além.

Vácuo duro
oprime meu peito
E eu soluço:
-- Mas não sou eu!
É outro, ele me diz;
Já outro.

Sei pouco a meu respeito,
Digo eu; e ele:
-- Muito menos eu!

E já nada serve,
incide ou provoca:
estou dormente.

Aplaino ao sono,
é noite avançada.

Meu corpo ferve,
fraqueja.

Nada já me serve --

Petrecostal

quarta-feira, 8 de março de 2017

Sujo na Cidade

Em meio a árvores
de nada compostas,
só são desfalques
copiosas mentiras
se apagando à medida
em quando subtraem-nas
dos galhos e folhas
e nenhuma nervura sequer
fica ao tronco despido
à copa invisível --
em meio a tanto,
no paço discreto
o naturalismo surdo
de mendigos ergue-se:
                                          suas barbas 
                                          imundas
destacam-se da
                                          face crispada
e ameaça pegar fogo
se há uma faísca;

                                          [e haverá faísca
no mundo que não os fira
o rosto; raspe do mapa sua
barba e afogueie os pêlos?

Duro chão sem lembranças
brota na cidade
quase um acidente
no meio do dia: sola
de sapato presa num
vão da calçada.

Mercadoria roubada
corre entre as mãos
                       [(e passeia
nos ônibus)
entre brilhantes e correntes.

Preso corre à solta
e escapa das autoridades:
                      [manchete de jornal.

Lodo convicto e concreto
armado: é ali o meu 
trabalho.

Tec-tec-tec

Foi mais um dia.
Não há energia à noite
em meu corpo.

Só há um corpo.

Até onde a vista
alcança eu dormirei está
noite -- dormir é um
desafio mas se dorme assim mesmo.

Petrecostal

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Soneto Calmo

Muito para mim
há que deva ser
deserto, mas enfim,
A alma me faz descer

Contente por morrer,
N'agitação de mim
Largo d'outro ver,
Velho estofo, e sim,

Dever se repetir
Como senta o pó,
Também subir

D'alma que quer despir
o tormento à dó,
No mais calmo unir.

Pedro Costa